quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Acredita...



Subo ao quarto andar. Abro a porta do consultório…
Entro, sento-me e tento organizar aquela confusão de papéis…
São nove horas em ponto. Oiço bater à porta.
Entre. Digo numa voz calma e meiga.
Entra a “ Rosa “…
Olá Rosa, como se sente hoje? Hoje quer sentar-se ou deitar-se?
-Deitar… e se possível, de olhos bem fechados.
Vamos então.
A Rosa deita-se…
Naquele divã bem junto à cadeira onde me sento. Nesse divã, fica sempre o livro “ O Monge que vendeu o seu Ferrari “ De Robin Sharma. Para entre pausas se vá dando uma vista de olhos.
Rosa, o que tem feito para mudar a sua vida…
Quando terminei de dizer… “ a sua vida… “ A Rosa, abre os olhos, e de imediato, e num cerrar dos dentes, fecha-os. Deixa fugir a sua primeira lágrima.
A minha expressão mantêm-se, apenas seguro na sua mão e deixo-lhe um lenço de papel perfumado.
-Cheira bem.
Diz-me com um pequeno e quase forçado sorriso.
-Antes de começar… Diga-me uma coisa L. Quantas pessoas já aqui passaram e que o tenham feito perder tempo a ouvir coisas como estas. Sei que é o seu trabalho mas, é deprimente.
Não as contei. Sei é que todas elas têm-me trazido uma conquista diária. Todas tem, tal como você Rosa, feito do seu mundo, um pouco melhor do que aquele que tinham quando aqui entraram pela primeira vez. E tenho sido feliz. Não tenho perdido tempo.
-Obrigado. Respondendo à sua pergunta L.
Nestas ultimas duas semanas, consegui encontrar uns minutos da minha vida agitada, para passear, ir comer um gelado e… oiça esta. Passear à chuva. É verdade, dia 12 choveu, como sabe, e ao ouvir as primeiras pingas, lembrei-me de si e do que me fez dizer e prometer.
Então, vesti o meu vestido azul curto. Curto quanto basta, abaixo do joelho. Meti umas sabrinas e corri para a rua. Para não parecer meio estranha, coloquei um saco ao ombro e assim deu a entender que ia ao mini mercado aqui na minha zona. Fiquei toda encharcada. Cheia de frio. Cheia de lama nos pés e nas pernas. Mas foi tão bom. Parecia uma adolescente.
Muito bem Rosa. Agora compreendo o porquê de estar quase sem voz.
A Rosa, soltou um sorriso sincero e uma sonora gargalhada.
Ganhei o dia, disse para mim, enquanto fingia ler ou escrever algo no meu bloco.
A Rosa, é uma mulher que cuida dos seus três filhos, como tantas outras mulheres. O seu ex-marido, agredia-lhe. Não fisicamente mas, verbalmente. Tirando-lhe ou mesmo, roubando-lhe todo o seu amor-próprio e a sua auto-estima. A Rosa, deixou de viver para si. Viveu para ele e para os filhos durante anos. Até ao dia em que ele a abandonou e a deixou com os filhos. Ainda hoje, a Rosa, acha que ela é a culpada e que fez algo de mal. E que deve ter merecido isso.
Eu digo-lhe, que foi a tal janela que se abriu depois de uma porta tão má, se ter fechado.
Já passou muito tempo mas, para a Rosa, tudo parece recente e vive se castigando.
-Ontem vi um conhecido, que me deixou um sorriso e um Bom Dia. Quando levava os meus filhos à escola. Baixei o olhar mas, sorri. E dei-lhe os bons dias na mesma. Já não é a primeira vez que o faz e até é muito simpático a falar da sua filha e dos meus filhos.
A Rosa quando entrou neste consultório pela primeira vez, chorou desde que entrou até sair. Contou-me parte da sua vida. Eu de pé, longe do seu olhar… tentava apenas ouvir e perceber a confusão que ia na sua cabeça e como a organizar de maneira a que ela conseguisse sentir que a sua vida poderia ser igual a tantas outras.
Mas, nesse dia… Chorei pela primeira vez no consultório. As lágrimas corriam-me pelo rosto. Morrendo bem junto ao meu peito.
A Rosa, é uma mulher tal como tantas outras. Que apenas precisava de ser ouvida, compreendida e amada.
Cada um de nós, tem o seu lado Psicólogo. Coloque-o em prática para quem ama.

A Rosa, voltou e acreditou em si. A Rosa, hoje, é uma mulher feliz. Dentro do que se esperava e pretendia para ela. Aos poucos, ela tem voltado a sorrir. Porque encontrou a força que precisava onde menos esperava, dentro de si.


#L611 #BurningW

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